Qual o nome correto da doença: Arterioesclerose ou Aterosclerose?

Os dois termos referem-se à mesma patologia, porém com uma diferença sutil. A Aterosclerose é um termo mais amplo que se refere à deposição de gordura em qualquer tipo de vaso sanguíneo, seja artéria ou veia. Já a Arteriosclerose é um termo mais específico que se refere ao acometimento das artérias pelo processo de deposição de gordura. Portanto, as duas formas são corretas.

O que é a aterosclerose e como ela se desenvolve?

A doença inflamatória crônica é a principal causa de morte no mundo e é caracterizada pela deposição de gordura na parede dos vasos sanguíneos, cujo acúmulo leva à formação de placas gordurosas chamadas de ateromas. A formação do ateroma é bastante complexa, envolvendo vários processos biológicos, inflamatórios e metabólicos que ocorrem no decorrer dos anos. Mas para facilitar o raciocínio, uma explicação simples é que ao longo da vida o colesterol ruim (LDL) vai sendo depositado no interior da parede do vaso e suas partículas englobadas por células de defesa chamadas de macrófagos. Esses macrófagos, à medida que englobam mais e mais colesterol, sofrem uma modificação e se transformam em células espumosas cuja confluência dá origem ao embrião do ateroma, que são as estrias gordurosas que começam a aparecer nas artérias já na infância. Esse processo irá ocorrer repetida e lentamente ao longo de décadas até o aparecimento da placa de gordura propriamente dita, conhecida como lesão aterosclerótica.

Além do colesterol, do que mais é constituída a placa de gordura?

A lesão aterosclerótica típica consiste de uma capa fibrosa que recobre a placa gordurosa, separando o seu conteúdo da corrente sanguínea. Por baixo dessa capa existe um acúmulo de diferentes elementos: células espumosas íntegras ou rotas, células inflamatórias (macrófagos), células musculares lisas que migraram da camada média do vaso, cristais de colesterol, restos de células mortas, cálcio e diferentes tipos de produtos celulares. Dependendo da espessura da capa fibrosa e do predomínio de um ou outro elemento, a lesão pode ser mais “dura” (placa estável) ou mais “mole” (placa instável) ou pronta para romper.

Quais são os sintomas da aterosclerose?

Infelizmente não tem sintomas específicos, o que existe são os sintomas da consequência dela, que é o entupimento das artérias. Essa é uma doença sistêmica, ou seja, pode ocorrer no corpo todo e os sintomas vão estar relacionados ao território acometido pelo entupimento, por exemplo: no coração, local mais frequente, o sintoma será de angina aos esforços no caso das placas estáveis ou a dor forte e súbita do infarto que é quando a placa, mesmo que pequena, se rompe, propiciando a formação de um coágulo que irá obstruir completamente a passagem do sangue; no cérebro, o sintoma será o AVC (Acidente Vascular Cerebral), mais conhecido como “derrame”; na circulação das pernas, o sintoma será uma dor em queimação ao caminhar, que obriga o paciente a interromper a caminhada de tempos em tempos, ao que chamamos de claudicação (mancar) intermitente; na circulação do intestino, o sintoma será dor abdominal após as refeições; e assim por diante.

Em que época da vida os sintomas da aterosclerose são mais comuns?

Habitualmente os sintomas decorrentes dos entupimentos arteriais costumam ser mais prevalentes após os 40 ou 50 anos nos homens e após os 60 anos nas mulheres. Mas devido aos hábitos alimentares inadequados, com alta ingestão de alimentos ricos em gorduras saturadas, aliados à obesidade, ao sedentarismo, ao hábito de fumar e ao estresse das grandes cidades levam cada vez mais jovens abaixo dos 40 anos a apresentarem infarto do miocárdio.

O que causa a aterosclerose?

Não existe uma causa única, pois ela é uma doença multifatorial. São múltiplos os fatores que contribuem, cada um a seu grau para cada indivíduo, tanto para instalação da doença como progressão e complicação, que é a ruptura da placa gordurosa.

Dentre os fatores, os imutáveis são os relacionados a sexo, idade e hereditariedade (história familiar e etnia).

Sexo: Os homens são mais afetados pela doença do que as mulheres, numa proporção de 4 para 1. Os homens começam a manifestar os sintomas dos entupimentos mais cedo e de forma mais grave. Isso devido a uma proteção natural fornecida pelos hormônios sexuais femininos, que contribuem para um maior nível do colesterol bom (HDL) e menor do colesterol ruim (LDL).

Idade: Nos homens, o risco aumenta a partir dos 40 anos e nas mulheres após os 60 anos, quando a menopausa já é presente há pelo menos uma década.

Hereditariedade: Pessoas que têm na família parentes de 1º grau – pai, mãe, tio, irmão – com história de doença aterosclerótica, em especial no território coronariano, têm maior risco de desenvolver a doença, principalmente aqueles cuja história da doença ocorreu precocemente, ou seja, antes dos 50 anos para os homens e antes dos 60 anos para as mulheres.

Os fatores mutáveis são a Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), o Diabetes Mellitus (DM), a Dislipidemia (colesterol alto), o tabagismo, a obesidade, o sedentarismo e as doenças imunológicas (Lupus, Artrite Reumatóide, etc). O controle rigoroso, desde muito cedo, desses fatores de risco pode evitar que a doença se desenvolva, daí a importância das campanhas para uma vida mais saudável desde a infância. No caso daqueles que já tem as suas placas de gordura, mas ainda não apresentam qualquer sintoma, o que corresponde à maioria da população, o controle rigoroso desses fatores irá estabilizar as placas e frear a progressão da doença, que poderá nunca se manifestar. O mesmo é válido para aqueles que já desenvolveram os sintomas ou as complicações da aterosclerose, e o benefício será a prevenção de novos eventos, garantindo melhor qualidade de vida.

Como diagnosticar a aterosclerose?

A principal e mais poderosa ferramenta da medicina moderna continua sendo a anamnese, que é a história clínica colhida pelo médico no consultório, junto com os antecedentes médicos e familiares de cada um. Com isso, aliado a um bom e meticuloso exame físico, pode-se calcular matematicamente o risco que um indivíduo tem de desenvolver as complicações da doença com pelo menos 10 anos de antecedência.

Do ponto de vista laboratorial, um dos principais exames é o perfil lipídico, que identifica se os níveis de colesterol estão dentro de faixas de segurança. Junto a esses, o perfil glicêmico é feito para afastar o diabetes, a função renal para afastar déficits de funcionamento dos rins que podem ser causa ou consequência da aterosclerose, os hormônios tireoideanos e outros.

Quando o paciente apresenta algum sintoma sugestivo de entupimento em algum território vascular, o médico solicitará exames específicos para aquele órgão. Por exemplo, para um paciente com queixa de dor no peito ou cansaço aos esforços, exames de imagem como eletrocardiograma e ecocardiograma de repouso podem dar uma pista sobre a doença. Mas se esses exames se apresentarem normais, o médico pode evoluir a investigação para métodos de esforço como o teste de esteira (teste ergométrico) ou ecocardiograma com estresse farmacológico ou teste de esforço combinado com cintilografia do miocárdio. Todos esses métodos dirão se a suspeita de entupimento nas artérias coronárias é procedente ou não. Caso um ou mais desses métodos se mostrem alterados, o médico pode, ainda, evoluir para exames ainda mais específicos como a tomografia de artérias coronárias ou mesmo o cateterismo cardíaco.

Sobre o tratamento, quais os tipos de remédios e procedimentos?

Existem os medicamentos para tratar as doenças que, de alguma forma, compõem o conjunto dos fatores de risco da aterosclerose: anti-hipertensivos para controle da hipertensão; e anti-diabéticos para controle do diabetes.

Uma família de medicamentos de grande importância na prevenção da progressão e complicação da aterosclerose é a família das estatinas, classe de hipolipemiantes que se mostrou altamente eficaz em reduzir o número de eventos cardiovasculares nos portadores de dislipidemia.

Por outro lado, quando a doença obstrutiva já está instalada e provoca sintomas de isquemia, habitualmente quando o grau de entupimento ultrapassa 70% da luz do vaso, existem as terapias de revascularização, cujo objetivo é reestabelecer o fluxo de sangue naquela artéria. A revascularização pode ser cirúrgica como cirurgia de ponte de safena para o coração, a arterectomia para as artérias carótidas ou cirurgia de enxertos para as artérias dos membros inferiores. Atualmente, a modalidade mais comum de revascularização das artérias é a angioplastia com implante de stent, que pode ser realizada em qualquer território: coronárias, carótidas, artérias cerebrais e artérias dos membros inferiores.

 

Texto escrito pelo Dr. Silvio Gioppato, médico cardiologista, coordenador médico-científico nos serviços de Cardiologia Invasiva do Hospital Vera Cruz, em Campinas, e no Instituto Dr. Jayme Rodrigues do Hospital São Vicente de Paulo, em Jundiaí. É membro da equipe de Cardiologia Invasiva do Hospital das Clínicas da Unicamp e também médico hemodinamicista colaborador do Hospital Bandeirantes, em São Paulo.

 

Sem comentários.